01 Set 2007 |
Cavaleiros de Santiago Senhores da Lagoalva - Os Anhaias - Resenha |
A historiografia coeva noticia a vinda de Pero d'Anhaia para o reino de Portugal, juntamente com o pai e um irmão, na altura das guerras de D. Afonso V com Castela, dando-os por partidários do rei português. Os relatos fidedignos e concretos remetem para o ano de 1477, quando o Principe Perfeito assumira o governo, na ausência do rei Africano. So sete anos depois, volta a encontrar-se documentação que o dá presente no Capítulo da Ordem de Santiago, realizado em Santarem em Maio de 1484, sob o Mestrado de D. João II, onde toma o hábito daquela ordem. Menos de três meses depois, Pero d'Anhaia recebe duas comendas, a da Lagoalva e a de St.ª M. ª da Sabonha, Alcochete. Posteriormente, cede esta última em troca de Entradas, além de receber uma tença anual nas rendas da portagem de Setúbal. Pero d'Anhaia é um dos indefectiveis do Principe Perfeito, situação que se percebe tanto pelas recompensas que recebeu coma pelo facto de se ter casado com uma filha do aio da rainha D.Leonor, João Nunes do Carvalhal, lugar que a família detinha já no tempo do pai daquela rainha, D. Fernando. Mais tarde, Pero d'Anhaia é escolhido pelo rei D. Manuel I para seguir na armada da Índia de 1505, sob as ordens de D. Francisco de Almeida, com expressa instrução de ficar em Sofala, onde havia de fundar a fortaleza que serviria de entreposto comercial no Índico. João de Barros diz mesmo que aquela fortaleza seria estabelecida a maneira da de S. Jorge da Mina. Esta afirmação permite supor que Pero d'Anhaia estava familiarizado com este tipo de empresas ultramarinas, além das conquistas e defesa das praças africanas.
Assim benquisto e homem de confiança do poder, parece ter estado a altura da escolha pelo relato que dele deixaram os cronistas da Índia, que se lhe referem, dando de Pero d'Anhaia uma imagem de pessoa cordata, cavaleiro esforçado e obedecido pelos seus subalternos. Infelizmente, não voltou da viagem porque, acometido de febres, encontrou a morte naquele lugar de África. João de Barros, Fernão Lopes da Castanheda, Gaspar Correia, Diogo do Couto e mesmo Faria Sousa fornecem a descrição da viagem e as dificuldades que Pero d'Anhaia teve de enfrentar, apesar do born começo das relações entre os portugueses e os governantes locals devido, sobretudo, a desconfiança que sobreveio, manobrada eficazmente pelos muçulmanos, que viram ameaçada a sua influência. A importância do feito mede-se pela circunstância de Camões ter imortalizado Pero d'Anhaia no épico lusíada.
Na mesma missão, acompanhou Pero d'Anhaia um dos seus filhos, chamado Francisco d'Anhaia, que deveria ser ainda bastante jovem, não obstante ter saído de Lisboa coma capitão de uma das naus da companha do pai. Além de Francisco, Pero d'Anhaia teve pelo menos mais dois rapazes, Diogo d'Anhaia, que lhe sucedeu na comenda da Lagoalva e Manuel d'Anhaia. Qualquer destes filhos de Pero d'Anhaia foi um intrépido cavaleiro, feitos as coisas da guerra e do mar, sobretudo na defesa das praças marroquinas. Nesta condição perdeu a vida Manuel d'Anhaia, tal como haveriam de perdê-la outros descendentes, netos e bisnetos de Pero d'Anhaia, por todo o Oriente.
Pero d'Anhaia teve ainda duas filhas, que casaram com fidalgos ligados as funções cortesãs, nomeadamente, Brianda que casou com Fernão d'Alcáçova, escrivão da Fazenda e provedor dos Cantos e Maria que casou com o monteiro-mor de D. Manuel, D. João de Lima. Netos de Pero d'Anhaia tiveram o seu name assente nas Moradias da Casa Real, nas da Casa da rainha D.Catarina e na do Infante D. Luis, como antes, outros seus antepassados a tiveram na Casa do Infante D. Fernando e ainda outros a teriam na Casa da duquesa D. Brites, mulher de D. Jorge de Lencastre.
É possível seguir com alguma precisão o traçado biográfico da família, num período que vai de 1477 a 1641, lato sensu, ficando o leitor com a certeza que se encontra perante uma genealogia de cavaleiros, um caso paradigmático historicamente falando, já que cobre no seu dia-a-dia, a vivência do soldado do império. Fica-se perante uma massa informativa que permite ajuizar de perto esse período extraordinário da História de Portugal.
Pero d'Anhaia e a sua descendência ficaram ligados a terra ribatejana, tendo a família residência permanente em Santarém e na Ribeira, porque para lá encaminha toda a documentação. O facto de Pero d'Anhaia ter recebido a Lagoalva, que ficava no campo além do rio, na toponímia antiga, talvez tenha sido determinante para a fixação da família nesta regiao. Contudo, andando e servindo na Corte, sabe-se que alguns dos membros da famlia Anhaia tiveram casa de morada em Lisboa e assim era nos últimos decénios do século XVI. Além dos comendadores da Lagoalva, os descendentes de Manuel d'Anhaia e de Francisco d'Anhaia tiveram terras nas cercanias de Alpiarça, dados adquiridos pelo testemunho notarial de algumas escrituras, sobre assuntos domésticos e particulares. Ficaram sepultados em Santarém ou na Ribeira a maior parte dos Anhaias. Outros perderam-se nos confins do Oriente, em terra e no mar, onde os levou o destino da profissão, como cavaleiros e soldados.
Manuel d'Anhaia Coutinho pode ser tomado como o último dos cavaleiros daquele apelido. Pela lista de feitos que foi possível traçar dele, mas também por ter acabado no crepúsculo dum tempo único que Pero d'Anhaia viu nascer. Reconhecendo-se descendente duma génese antiga que batalhou na fundação de Portugal, ao lado do Conquistador, Manuel d'Anhaia Coutinho quis terminar os seus dias em Semide, sítio onde outrora dois irmãos, Martim Anaia e Afonso Anaia, criaram um cenóbio masculino onde ingressaram antes de morrer. A notícia diz-nos que naquele lugar quis também encerrar os seus dias, por volta de 1620, o derradeiro Anhaia. Contudo, não pode deixar de ser significativo quo a última noticia recolhida fale de uma filha do 4.° comendador da Lagoalva, casada com D. Gil Eanes da Costa que serviu a nova casa reinante, recebendo de D.Joao IV uma tença por serviços que seu marido prestou nas armadas como capitão de vigias.
Notas[1] Tomou o lugar do irmão (chamado Pero d'Anhaia como o avô) na sucessão da comenda, eventualmente devido a incapacidade e morte prematura deste. Todavia, Pero d'Anhaia ainda teve o título de comendador da Lagoalva, antes de o ceder ao irmã, com o acordo do Mestre D. Jorge. IAN/TT. OS/CP, Liv.19, fls.144v-145.
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